Artigo originalmente publicado na Best Swimming, escrito por Alex Pussieldi por ocasião do Especial Best Swimming 2016, uma análise com crítica sobre 17 assuntos que marcaram os últimos 8 anos da gestão CBDA, e onde muitas sugestões já foram dadas diretamente à diretoria da CBDA mas que ficaram só na idéia.

Quantas destas idéias você acha que podem ser assimiladas pela chapa da situação, que deseja manter tudo como está (e zero transparência, começando com a própria campanha), ou pela chapa da oposição, que já manteve aberta desde setembro do ano passado as suas propostas?

Link original: http://www.bestswim.com.br/2016/12/31/17-ideias-para-2017/


Eleições da CBDA marcadas para março de 2017, seja na situação ou na oposição, é unanimidade que o modelo de gestão da natação brasileira precisa ser mudado. Treinadores, dirigentes, clubes, federações, a comunidade precisa ser ouvida, está na hora de uma revisão em conceitos e oportunidades que precisam ser ajustados para um novo ciclo.

Coaracy Nunes esteve a frente da entidade por 28 anos, inegavelmente um período muito longo, mas que também marcou pelo melhor momento do país na história deste esporte em resultados internacionais. Abaixo, a Best Swimming traz algumas propostas, idéias, sugestões, e indicações de formatos e questionamentos de coisas que não vem dando tão certo e até mesmo comprometendo o futuro da natação brasileira. Nada disso é absoluto, são acima de tudo discussões que visam o benefício do nosso esporte.

01) As provas de 50 metros nos estilos

O Brasil precisa rever isso urgentemente! Já passou da hora inclusive. Se o projeto da natação brasileira é um programa olímpico, isso precisa ser modificado imediatamente. O Brasil no ciclo olímpico 2012-2016, com dois Campeonatos Mundiais de Piscina Longa e três de Piscina Curta teve 24 medalhas, 13 delas em provas não-olímpicas, isso é mais do que o dobro de conquistas. O Brasil é o único país do mundo que oferece as provas não-olímpicas em três campeonatos nacionais absolutos por ano. Alguns países nem oferecem tais provas. Não são as provas que “fazem mal” a natação brasileira, mas a cultura que se criou em torno delas, de competição e principalmente de treinamento.

Sugestão:
Deixar apenas um dos campeonatos nacionais absolutos do país com as provas de 50 metros nos estilos, eliminá-las de todos os critérios de convocação para Seleção Brasileira, eliminá-las dos critérios de premiação de melhor índice técnico.

2) Campeonato Brasileiro Júnior Interfederativo

Provavelmente dentro do calendário nacional, a pior competição. Sem motivação, sem entusiasmo, e a cada ano, menor. A idéia era reproduzir o sucesso do que é o Troféu Chico Piscina, coisa que nunca aconteceu. Nos últimos anos, com a ausência de alguns dos principais Estados, virou um torneio totalmente sem sentido.

Sugestão:
Eliminar a competição, sem qualquer necessidade de colocação de outro evento.

3) Revezamentos 4×50 livre e 4×50 medley misto

Tais provas não existem nas regras de natação, isso mesmo, não existem. Mesmo estando presente em TODOS os campeonatos nacionais, o 4×50 livre e o 4×50 medley misto não existem nas regras da FINA, nem recorde mundial, nem nada. Tais provas são disputadas apenas em piscina curta. No Brasil, elas fazem parte de todas as competições nacionais. Se o objetivo era motivar, talvez um torneio de cabo de guerra fosse mais interessante e atrativo, pelo menos cabo de guerra já foi esporte olímpico.

Sugestão:
Eliminar por completo do programa das competições nacionais e regionais, manter apenas nas competições de piscina curta, como a FINA determina e oficializa.

4) Revezamento 4×200 livre

Se o 4×50 livre e o 4×50 medley misto estão em todos campeonatos nacionais, o 4×200 livre, prova olímpica, está em quase nenhum. Nadadores infantis, juvenis e júniors nunca disputam o 4×200 livre. Isso é simplesmente inaceitável e injustificável. A prova só é realizada duas vezes por ano, no Maria Lenk e no Finkel.

Sugestão:
Incluir o 4×200 livre em todos os campeonatos regionais e nacionais para as categorias de infantil a senior.

5) Número de provas por atleta

Ninguém sabe quem é o “pai da criança”, mas o procedimento vem desde a antiga CBN, Confederação Brasileira de Natação, e seguindo orientação do extinto CND, Conselho Nacional de Desportos. Por algum motivo (incerto e não sabido), se mantém os atletas limitados ao número de provas a serem disputadas. No Maria Lenk e Finkel, mesmo sendo seis dias de competição, os nadadores são limitados em quatro provas. Nos Estados pelo país, a média é do número de dias de competição mais um para o número de provas a ser disputada. Isso vai por completo em relação ao sistema adotado internacionalmente. Nos Estados Unidos, principal natação do mundo, os atletas são limitados em cinco provas por dia, mais revezamentos. Se falarmos em termos de Campeonatos Mundiais e até mesmo Jogos Olímpicos, não existe qualquer regra que limite o número de provas a ser disputada. Esta limitação tem minimizado a oportunidade dos atletas em poderem se desenvolver em outras provas, outros estilos e outras distâncias, fatores determinantes para um futuro mais adequado no planejamento das carreiras dos atletas.

Sugestão:
Incrementar o número de provas por atleta em todas as competições regionais e nacionais. Tal tipo de mudança é fundamental principalmente para as categorias menores, atletas em desenvolvimento e formação.

6) Critérios para convocação de Seleções Nacionais após as seletivas

Problema antigo da natação brasileira, recorrente e totalmente sem sentido. No último dia 21 de novembro, a CBDA publicou o boletim 246/2016. Nele, os critérios de convocação para o Campeonato Sul-Americano Juvenil de 2017. Entre os critérios apresentados, três seletivas apontadas, uma delas realizada antes da publicação do boletim (Julio de Lamare 12 a15 de outubro), as outras alguns dias depois (Carlos Campos Sobrinho nove dias depois e Maurício Bekenn 16 dias depois). Anúncios de critérios e seletivas não podem ser feitos assim, muito menos nos congressos técnicos que antecedem as competições. Isso deveria ser feito no início da temporada, onde treinadores e atletas teriam a temporada toda para se preparar de forma adequada e planejada.

Sugestão:
Planejar, planejar, planejar, não tem mistério.

7) Troféu Julio de Lamare

Talvez a nova geração da natação brasileira não saiba, mas há alguns anos, o Julio de Lamare era nossa segunda melhor competição do calendário nacional, só perdia para o Troféu Brasil. O que se vê hoje, e este ano foi ainda pior, um campeonato sem motivação, sem animação, sem qualquer interesse. Existe quase um drama aos nadadores juvenis quando completam sua passagem pelo Chico Piscina ao saberem que no ano seguinte não poderão disfrutar de competições como aquela. O Julio de Lamare 2016 foi o pior dos últimos 20 anos. Foram apenas quatro recordes de campeonato. Comparados a 12 do ano passado, 16 de 2014 e 18 de 2013. Não temos conseguido nem ter eliminatórias e finais para todas as provas. Até mesmo o número de atletas que melhoraram tempos na competição foi alarmante.

Sugestão:
Ressucitar o Julio de Lamare! Fazer com que a competição seja todos os anos seletiva para a categoria júnior, se valesse para o Mundial o entusiasmo dos atletas seria outro. Criar uma nova forma de disputa, mais interessante e forçando os atletas a nadarem forte duas vezes ao dia. Nas eliminatórias, final direta por categoria, Júnior I e Júnior II, nadando separados e premiando por categoria. Na final, apenas os oito melhores nadadores de cada prova, apurando o campeão júnior na soma das duas categorias. Tal situação criaria a oportunidade dos atletas nadarem forte duas vezes no mesmo dia, fundamental na sua formação.

8) Os melhores do Ano

É um prazer para a Best Swimming fazer a escolha dos melhores nadadores da temporada. Desde a criação do Troféu Best Swimming, há 16 anos, o interesse, prestígio e reconhecimento da nossa iniciativa só fez crescer. Já passou da hora da CBDA fazer a sua própria festa, escolha ou apontamento. Algo positivo, que adicionaria a comunidade aquática reconhecendo aqueles que fazem o melhor por nosso esporte. É difícil encontrar alguma Federação internacional de natação que não tenha tal tipo de reconhecimento anual.

Sugestão:
Criação do Prêmio CBDA, os melhores do ano em critérios e processo a ser definido pela entidade, mas realizados anualmente premiando os mais destacados da temporada.

9) Recordes brasileiros de categoria

A Best Swimming através de um levantamento feito no ano passado, com participação direta de Eberth Feitosa, criou os recordes brasileiros de categoria. Tal tabela a partir da categoria Petiz foi apresentada ao Conselho Técnico Nacional da CBDA em outubro de 2015. A intenção era incrementar uma nova ferramenta valorizando e prestigiando os resultados, as conquistas e os feitos dos nossos atletas. Este ano, a Best Swimming lança os recordes brasileiros de categoria em piscina de 25 metros, ampliando ainda mais a oportunidade de valorizar e reconhecer os atletas e seus resultados. Tal proposta jamais foi apresentada a Assembléia das Federações e a CBDA não manifestou interesse em aplicar. Todos os recordes apurados são aferidos e registrados em competições oficiais da CBDA em levantamento histórico feito pela Best Swimming junto a CBDA nos últimos 30 anos.

Sugestão:
Colocação em avaliação e votação das Federações para aplicação dos Recordes Brasileiros de Categoria nas competições oficiais regulamentadas pela CBDA.

10) Seleções Júniores

No Brasil, quase que historicamente, o objetivo das Seleções Júniors são para ganhar competições, ao invés de revelar nadadores. Em alguns anos, atletas até 18 anos de idade chegam a participar de três, quatro seleções brasileiras na mesma temporada. Isso quer dizer Multinations, Sul-Americano Juvenil, Mundial Júnior e alguma Seleção Escolar. Esta “internacionalização” da categoria, é positiva por expor o atleta a um nível superior de disputa, incrementar sua experiência, mas tem se comprovado manter os atletas muito tempo longe dos treinamentos e quebrando a sua sequência de formação. Ao completar 18 anos, e com a dificuldade de poder chegar a uma seleção principal, um atleta júnior pode ficar muitos anos sem chegar a seleção novamente depois de vários anos participando de multi seleções.

Sugestão:
O atleta convocado para a Seleção Brasileira Júnior ou Juvenil junto com seu treinador deveria fazer a opção por apenas um evento internacional por ano. Permitindo assim enviar um grupo distinto para o Sul-Americano, outro para o Multinations, oportunizando mais atletas participando deste processo, sem qualquer especialização precoce nestas multi seleções. Tal procedimento é recorrente e utilizado internacionalmente pelos principais países de natação do mundo.

11) Troféu Chico Piscina

É a melhor competição do país, mais disputada, mais comemorada, mais festiva. Se é tão boa, por que mudá-la? Não é mudar, e sim incrementar. Existem 27 federações estaduais no país, entretanto, a média de presença de seleções estaduais é entre 12 a 14, todos os anos. Estados como Acre, Amapá não aparecem há anos. Até mesmo o Maranhão, Pará e Amazonas não tem sido vistos recentemente. É uma oportunidade tremenda perdida para os nadadores destas regiões.

Sugestão:
Dar a CBDA a responsabilidade de cobrir as despesas de ter pelo menos dois atletas, um no masculino e outro no feminino de todos os Estados. Tal procedimento é utilizado pela FINA que garante a presença de todos os países filiados nos campeonatos mundiais.

12) Nadadores estrangeiros no pódio

Em 2016, a CBDA já eliminou a dupla premiação do Troféu Chico Piscina. Ao transformar a competição em internacional, independente do vencedor ser estrangeiro somente ele é premiado. O mesmo deveria ser feito para os Campeonatos Nacionais Absolutos. Se algum clube traz um nadador estrangeiro para lhe representar no Maria Lenk ou no José Finkel, ele deveria ser reconhecido pelo resultado alcançado. A dupla premiação é desnecessária e cria uma dúvida para o telespectador que ao acompanhar as transmissões tem de escutar a cada uma delas a explicação. Atletas deste nível não querem e nem fazem questão das medalhas.

Sugestão:
Medalhas de ouro, prata e bronze para os três primeiros colocados e ponto.

13) Reconhecimento dos treinadores

Treinador no Brasil não tem nome, nem sobrenome. Não é conhecido, muito menos reconhecido. Atletas quando recebem seus prêmios de melhor índice técnico, são anunciados “acompanhado de seu treinador”. Técnicos deveriam buscar seus espaços e serem mais valorizados. Nas convocações para os campeonatos internacionais, os atletas recebem a convocação em casa, os treinadores nem são comunicados. Nos Estados Unidos e muitos países no exterior, treinadores são premiados como os mais destacados das competições nacionais. Ainda na natação americana, nos torneios regionais, são os treinadores dos atletas campeões que fazem as entregas de medalha no pódio.Na Hungria, nos resultados oficiais da competição, logo abaixo do nome do atleta vencedor vem o nome do seu respectivo técnico.

Sugestão:
Criar mecanismos de valorização e reconhecimento aos treinadores. Ter os nomes dos profissionais mencionados e valorizados com os respectivos resultados de seus atletas. É uma mudança de filosofia para o benefício dos profissionais envolvidos com o esporte.

14) Valorizando a nova geração

Nos Campeonatos Nacionais Absolutos tem sido cada vez mais difícil de jovens atletas aparecerem no pódio e até mesmo nas finais. Com a profissionalização do esporte, carreiras mais longas, jovens nadadores com menos de 18 anos são exceção nestas concorridas finais. Nos Estados Unidos, além da premiação normal da prova nos campeonatos nacionais, é reconhecido aquele que foi o melhor nadador de 18 anos ou menos da prova. A premiação oportuniza o reconhecimento de um atleta em formação e que em breve poderá estar no alto nível da disputa.

Sugestão:
Criação da premiação 18 anos e menos para todas as provas individuais dos Troféus Maria Lenk e José Finkel, premiando aquele nadador melhor classificado dentro desta faixa etária. Como critério mais rigoroso, seguir a linha utilizada pela USA Swimming, premiando apenas aqueles que chegarem nas finais (A ou B).

15) Os Campeonatos Brasileiros de Inverno

Tal assunto ainda será motivo de discussão na Assembleia em março. Talvez ofuscado pela disputa da eleição para a entidade, mas os campeonatos nacionais de inverno fizeram falta em 2016. O motivo para a sua não realização foi um pedido da entidade, primeiramente ao Conselho Técnico Nacional, e depois usado como argumento para convencer os Presidentes de Federação. A idéia era incrementar as disputas regionais, coisa que não aconteceu, mas principalmente focar na preparação da Seleção Brasileira no caminho do Rio 2016. A verdade é que os certames fizeram falta e mesmo que modificados em projeto a ser desenvolvido seja pela crise financeira, falta de patrocínio, os campeonatos precisam ser repensados, mas seu retorno é importantíssimo, principalmente para as categorias menores.

Sugestão:
Volta dos campeonatos nacionais de inverno em 2017.

16) Seletivas Olímpicas

Já tivemos um avanço e tanto ao cair de sete seletivas para a Seleção Brasileira dos Jogos de Londres 2012 para duas do Rio 2016. Mesmo assim, tivemos o Open 2015 com provas de 50 metros nos estilos e revezamentos. A natação brasileira evoluiu, e seus treinadores também. Os atletas estão mais conscientes e determinados, é preciso que o projeto olímpico seja mais valorizado e principalmente respeitado. Seletiva olímpica é seletiva olímpica, mais importante do que qualquer competição clubística, troféu ou medalha em disputa. Outra situação a ser discutida é a classificação de atletas em resultados feitos nas eliminatórias e não repetidos nas finais. Muitos atletas, chegam até fazer suas marcas pela manhã e soltar ou não aparecer na final.

Sugestão:
Realização de apenas uma seletiva para Tóquio 2020. Estabelecer que somente os tempos das finais serão considerados como válidos. E não é cedo decidir e deliberar por tal assunto já em 2017, exatamente no início do novo ciclo olímpico.

17) Projeto 2020 e 2024

Se há um problema no Brasil é a falta de planejamento. Estamos sempre pagando as contas já vencidas, no esporte não é diferente. Se realmente o objetivo é fazer um trabalho olímpico, planejado, a idéia é criar um sistema de apuração de talentos, identificação e acompanhamento, criação de um programa de treinamento nacional, realização de clínicas e projetos de desenvolvimento de alto nível. Está na hora dos resultados olímpicos serem produtos de um trabalho estruturado e programado e não depender apenas do talento esporádico de nossos atletas.

Sugestão:
Planejar, planejar, planejar.

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