Nos últimos 4 anos vimos, com nossos próprios olhos, diversas manifestações – virtuais e reais – acerca do governo federal e estadual. Por enquanto, o placar é de uma presidente da república destituída, um presidente da câmara dos deputados preso, dois ex-governadores do Rio de Janeiro presos, um presidente do Senado Federal em vias de ser destituído por ser réu em crime comum, diversos empresários presos e firmando acordos para delatar outros membros de uma organização criminosa nacional que não conhece limites, vários outros políticos menores denunciados, em vias de denúncia, presos ou em vias de ir à prisão, destituídos do cargo, condenados em 1ª e 2ª instâncias…

Para todas estas manifestações, facilmente encontramos quem tenha opinião para dar, notícias – falsas e reais – para compartilhar sem ao menos ler seu conteúdo, bater panelas, xingar, afirmar com pulmões cheios que todo político é ladrão, que o Brasil está uma desgraça só, que o Poder Judiciário está impregnado de decisões contraditórias e suspeitas (ou afirmações) de favorecimento à políticos do primeiro escalão do governo federal, que o Poder Legislativo sustenta propostas de leis que limitar a ação que coibe a corrupção, que o Poder Executivo manda e desmanda no mesmo dia, concorda que para aposentar é preciso de no mínimo 45 anos de “contribuição” (roubo na verdade) para um sistema previdênciário falido e indica ministros com um currículo marcado por investigações e em vias de condenação protegendo o interesse privado de pessoas próximas ou ligadas à Presidência da República.

Estamos falando de uma massa populacional que ultrapassam facilmente os 100 milhões de cidadãos que obrigatoriamente tem que comparecer às urnas para votar. Estamos falando de interesses que afetam o cotidiano dos cidadãos brasileiros, que vêem nos preços nos supermercados, nas bombas de gasolina, no custo dos excessivos impostos pagos obrigatoriamente, entre tantos outras visibilidades. Adiciona-se os problemas de infraestrutura: estradas mal conservadas e a falta de novas hidrelétricas, só para ficar em dois itens. Há 8 anos atrás, nas aparências a economia estava bem, todos estavam felizes e contentes com o crescimento do país e, por isso, os cidadãos julgavam que estavam sendo liderados por uma política e políticos que visava o bem do país, quando na verdade costuravam secretamente um projeto para primeiro permanecer no poder e depois distribuir o pornográfico volume de desvio de verbas de empresas estatais entre os companheiros e amigos. Vieram as exposições, investigações e denúncias de então intitulados inimigos, o projeto desabou e a torre de papel antes chamada de “milagre econômico brasileiro” continua desmoronando. Com a força de um jato d’água.

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Cenas da Assembléia Geral Extraordinária realizada em setembro de 2016, onde foi decidido por maioria que os atletas não tem direito a voto

Diante desse cenário, torna-se inacreditável escutar e ler textos de pessoas envolvidas com os esportes aquáticos cujo conteúdo é que não adianta “bater” – ou pior, criticar – a direção e gestão atual da CBDA, que completará 30 anos em 2017, terminando a trágica temporada 2016 com menos competições no calendário nacional, mesmo impulsionada com dezenas de milhões de reais, gastos excessivos e desiguais entre atletas, técnicos e Federações, além de ter apostado irresponsavelmente todas as justificativas para tais medidas em medalhas olímpicas. Para estas pessoas, é preciso buscar uma saída conciliatória, propondo idéias, ajudando, apoiando e, principalmente, ratificando cegamente a execução dos planos da CBDA, criados única e exclusivamente pela própria Confederação e conhecidamente apontando para a elite dos esportes aquáticos de poucas dezenas de atletas. A denúncia do Ministério Público Federal, para estas pessoas, não passa de uma perseguição política, mesmo confrontadas com fatos. Se ocorrem erros – e foram muitos no decorrer de 3 décadas, financeiros, administrativos e técnicos – deve-se apenas lamentar e “torcer” para que não ocorra novamente. E, obviamente, para estas pessoas é preciso dar o apoio incondicional e irrestrito à administração e a justificativa é muito simples: porque esta administração fez muito pelos esportes aquáticos brasileiros. Mostrar o brilho de poucas medalhas internacionais – para estas pessoas – é cegá-las para o que acontece dentro do próprio país, com retração de clubes, equipes, atletas, interesse (público e privado) e piscinas. Na natação, campeonatos nacionais absolutos com apenas 9 participantes em uma prova é um claro indício de que existe um grave problema no desenvolvimento do esporte de base no país. Bater palmas para uma medalha de ouro enquanto cancelam-se campeonatos nacionais ou até mesmo estaduais (isso quando não se realizam campeonatos com 60 a 40 atletas, ou ainda com duas equipes de polo aquático) não é nem um pouco sensato, as duas atitudes não andam na mesma direção apesar de guiadas pela mesma entidade. Por isso que é importante distinguir as duas coisas: uma coisa é a natação do Brasil, outra coisa é a natação no Brasil.

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Muitas pessoas acreditam que o sucesso dos esportes aquáticos brasileiros é crédito exclusivo da Confederação, quando na verdade desde 1993 assistimos a um crescimento espontâneo e infelizmente pontual, fruto da vontade do próprio atleta – e do apoio de sua família, que acabam encontrando condições de treinamento dentro de clubes e equipes. À CBDA resta criar competições e “convocar” este atleta se ele estiver dentro das condições propostas, o que por vezes não é clara o suficiente. A CBDA não forma atletas, seleciona-os. A famosa frase exibida em diversos boletins oficiais dos últimos 16 anos referentes à convocações de atletas (“Os casos omissos serão decididos pelo Presidente da CBDA, após ouvir a Diretoria Técnica de Natação” ou “A CBDA se reserva ao direito de resolver os casos pendentes, sempre na condição de se formar a melhor composição brasileira“) mostra que antes da justiça aos atletas existem condições ocultas.

Assembleia Geral Ordinaria Eletiva da Confederacao Brasileira de Desportos Aquaticos - CBDA. 09 de marco de 2013, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. Foto: Satiro Sodre/SSPRESS

Assembleia Geral Ordinaria Eletiva da Confederacao Brasileira de Desportos Aquaticos – CBDA. 09 de marco de 2013, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. Foto: Satiro Sodre/SSPRESS

A verdade é que os esportes aquáticos brasileiros não estão acostumados com democracia, justiça ou liberdade de expressão porque durante 30 anos conviveu com uma ditadura privada, sem os requintes de crueldade física. Afinal em 8 oportunidades de eleições não houve uma única vez um grupo opositor exposto o suficiente para fazer parte da eleição porque eram reprimidos de forma autoritária pela figura do presidente da entidade. “Eu elejo um poste se eu quiser”, já bradou publicamente. Os esportes aquáticos sofreram com as intervenções diretas de pouquíssimas pessoas no destino das modalidades, intitulando ser democráticas as decisões unilaterais – e erradas – que são tomadas. A justiça passa longe quando se trata de divisão de receita entre Federações ou ainda para determinar o quanto cada atleta e técnico de alto rendimento deve receber de salário por um período apenas conveniente à CBDA e nunca ao atleta e técnico. Nestes casos, o segredo é um forte aliado: o oculto, o que não se pode vir à público, porque justamente escancara a falta da justiça. E a liberdade de expressão é sumariamente reprimida, seja através de ligações do próprio presidente da Confederação, aos berros, seja por boletim oficial desmentindo textos e fatos divulgados, às vezes, por Federações Aquáticas Estaduais, ou, por fim, pelas ameaças de processo judicial e corte de pagamento.

Projeto Social de Montes Claros, em Minas Gerais, finalizado em junho desde ano: este tipo de projeto consumiu 2 milhões da CBDA. Onde estão os resultados e, melhor, onde está esse projeto na proposta da candidatura de situação? Será que só com dinheiro milionário é que é possível estimular poucas dezenas de atletas a nadar?

Projeto Social de Montes Claros, em Minas Gerais, finalizado em junho desde ano: este tipo de projeto consumiu 2 milhões da CBDA. Onde estão os resultados e, melhor, onde está esse projeto na proposta da candidatura de situação? Será que só com dinheiro milionário é que é possível estimular poucas dezenas de atletas a nadar?

Enquanto a mesma pessoa que preconiza as atitudes da CBDA sob as esdrúxulas justificativas de amizade, de dedicação e paixão ao esporte e de ajuda irrisória  (comparando-se à importância do peso do voto de uma Federação dentro do escopo confederativo dos esportes aquáticos), ela demoniza o próprio governo estadual e o federal, cujas práticas político-administrativas são utilizadas na mesma Confederação que defendem. Não há coerência porque não há um importante vínculo entre estas pessoas e o governo que criticam: a suposta amizade.

Sim, claro. Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a força da lei.

E é graças a esta amizade que a atual gestão da CBDA construiu um muro de proteção para o ineficiente sistema administrativo-financeiro que existe lá dentro. Não se questionam mais a capacidade de um profissional, mas sim se ele é bem relacionado, se ele “se dá bem” com determinadas pessoas e, também, se ele não critica o chefe. Se ele conta piada ou é engraçado, se ele te trata bem (muito subjetivo), se ele te conta que nunca viu uma competição tão bela, se ele te retorna ligações ou mensagens… Nada ligado a algo próximo de eficiência, resultados, planejamento e desenvolvimento. Surgem os privilégios, viagens, custeios de trânsito e hotelaria dentro da própria cidade, chefias de delegação. Uma série de benefícios que ajudam a solidificar esse muro de proteção e que ajuda a esconder a realidade e, claro, a verdade por trás de uma Confederação milionária em recursos e empobrecida em transparência e resultados equivalentes ao montante. E não só dizemos de medalhas, mas de todo o sistema esportivo que, teoricamente, é responsável pela gestão.

Técnicos reunidos para o Conselho Técnico Nacional realizado em 2015, "pensando em 2020": em 2016 não houve reunião do Conselho Nacional

Técnicos reunidos para o Conselho Técnico Nacional realizado em 2015, “pensando em 2020”: em 2016 não houve reunião do Conselho Nacional

A passividade dos atletas e técnicos – principais elementos em quantidade e importância da estrutura esportiva – frente aos mandos e desmandos da Confederação é não só inaceitável como também extremamente prejudicial para o desenvolvimento deles próprios. A revolta e críticas contidas não ajudaram em nada para qualquer mudança ou aprimoramento ou aprendizado. Aceitaram as condições sem questionamento porque, graças ao muro de proteção da CBDA, eles sentem-se impotentes quando na verdade são a maior força da conjuntura. De fato, o que ocorre é que eles são constantemente desprezados e menosprezados em importância quando o assunto é gestão da entidade que os regem. Tanto é que na última alteração estatutária, foram excluídos do direito de voto em Assembléia Geral. E parece que os próprios atletas reprimem – e são considerados como vozes insignificantes pela entidade – ou desconhecem a força política deles próprios quando ironicamente foram peças muito importantes na eleição da atual gestão da CBDA, há 30 anos atrás. Em caso mais recente e não usual, na Hungria, Katinka Hosszu tomou a liderança da voz contra seu próprio presidente da Federação Húngara, que inclusive é um dos vice-presidentes da FINA. O dinheiro de patrocínio que sustenta a própria estrutura da Confederação não aparece por causa dos resultados realizados por ela, mas sim pelos resultados obtidos pelos próprios atletas. Ou, deixando mais claro, por maior e melhor que seja o projeto de qualquer modalidade, ele é fadado ao fracasso se no final da execução dele os atletas não apresentaram os resultados compatíveis com o investimento. Esta aí Rio 2016 para não deixar mentir. Kazan 2015, Barcelona 2013, Xangai 2011, Roma 2009, Melbourne 2007, Montreal 2005, Barcelona 2003, citando os 7 últimos Campeonatos Mundiais de Esportes Aquáticos, são resultados ao longo dos anos instáveis, dependendo de resultados (e aqui se traduz em medalhas) de, no máximo, 5 atletas.

A seleção olímpica de 2016: tudo dependia deles, tudo mesmo, os investimentos, os próximos patrocínios, a próxima eleição...

A seleção olímpica de 2016: tudo dependia deles, tudo mesmo, os investimentos, os próximos patrocínios, a próxima eleição…

A revolta contra a gestão atual da CBDA é maior do que o movimento Muda CBDA, e é inclusive maior que a força que gerou à criação da chapa de oposição para a próxima eleição da Confederação. Mas esta revolta ainda é muito silenciosa, sem panelaços, sem textões no Facebook e, principalmente, aceitando-se as condições atuais porque “não há como mudar”. Se fosse mantido este tipo de pensamento e atitude, seria impossível atribuir qualquer manifestação popular à destituição de não só um, mas dois Presidentes da República. Mas o crescimento exponencial de desafetos e críticas, bem como a exposição dos defensores e “amigos” da CBDA, desvirtuou os objetivos da próxima eleição, e transformou-se num debate religioso, segregado e baseado na defesa ou não do atual sistema, na questão pessoal de gostar ou não de determinado candidato pura e simplesmente pela cara ou – mais uma dicotomia conhecida – por ser um cidadão do sudeste ou do nordeste do país. A racionalidade que norteia o sucesso de uma companhia – sim, a CBDA é uma empresa – é ignorada em favorecimento dos laços afetivos e passionais, que nada contribuem para o desenvolvimento e prosperidade, ao contrário, atrapalham e anulam o crescimento.

Porque, afinal de contas, não estamos todos querendo mais atletas, mais campeonatos, mais medalhas e mais títulos, gerando mais receita, mais visibilidade, mais importância, mais praticantes, mais consumidores dos esportes aquáticos? Não seria esse o principal objetivo de uma Confederação esportiva?

Notebook doado à Federação da Paraíba pela CBDA

Notebook doado à Federação da Paraíba pela CBDA

Não posso aceitar que seja difícil mudar a mentalidade e gestão da presidência de uma entidade que é eleita por apenas 27 votos, ainda mais comparando com qualquer outra eleição governamental, fora da esfera esportiva, onde o número de eleitores é extremamente superior. E também não posso aceitar que o julgamento de uma candidatura seja unicamente pelos laços afetivos e não pela proposta e currículo de candidato. E esse critério de escolha já foi provado ser ineficiente e até inócuo para os eleitores deste sistema, já que não se sabe – e nunca se soube – claramente o que a Confederação propôs e cumpriu para uma Federação Estadual nos últimos 20 anos. Envio de materiais, computadores, medalhas, diplomas, camisetas e outros penduricalhos às Federações não incentivam desenvolvimento e tampouco capacita uma Federação e seu/sua presidente a buscar recursos financeiros próprios, porque se quer crescer no escopo global, tem que ajudar a crescer regionalmente, o que nunca foi o objetivo desta gestão da CBDA, que mirou sempre nas medalhas olímpicas e nos atletas de elite, que justificavam o patrocínio eterno dos Correios. Às Federações restavam aplaudir, elogiar e perpetuar um sistema que contribui mediocramente para o crescimento dela própria. Ou será que uma viagem ao Rio de Janeiro com direito a acompanhante, uma vez por ano, para a Assembléia Geral é realmente suficiente para o desenvolvimento?

An unidentified West Berliner swings a sledgehammer, trying to destroy the Berlin Wall near Potsdamer Platz, on November 12, 1989, where a new passage was opened nearby. (AP Photo/John Gaps III)

Um cidadão desconhecido batendo no Muro de Berlim em novembro de 1989

Por isso os murros neste muro da CBDA continuam. Às vezes doem, às vezes tiram um tijolo e você começa a ver o que há lá dentro, e torna público, com o objetivo de que expor é combater a volta do problema ou eliminar o que causou esse problema. Para crescer, não adianta pintarem esse muro da CBDA como querem os atuais administradores e aqueles que apoiam, é preciso eliminar essa barreira, um tijolo de cada vez.


Para saber sobre a proposta, pública, da candidatura de oposição: http://miguel2017.com.br
Para saber sobre qualquer proposta da candidatura da situação ou da atual gestão…

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One Response to O muro da CBDA

  1. Belíssimo texto!
    Continuemos lutando por clareza, justiça e honestidade.
    Se não buscarmos isso, diariamente, veremos um fim terrível para nosso esporte…

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