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A elitização dos Campeonatos Brasileiros

A CBDA divulgou ontem, dia 21 de fevereiro, a tabela oficial de índices de participação para os Campeonatos Brasileiros de Natação da temporada 2017 e 2018.

A mudança na tabela ocorre depois de pouco mais de 4 anos, quando a última tabela foi divulgada, em 2013:

Fomos saber como estes novos tempos – a grande maioria bem mais forte que a tabela anterior – teriam impacto aos atletas e descobrimos que, em geral, a participação nos campeonatos brasileiros diminuiria 38%.

Levantamos os resultados de eliminatórias dos campeonatos brasileiros de 2016 (Troféu Maria Lenk no caso dos índices absolutos) e comparamos os resultados com a nova tabela de índice – apenas em piscina de 50 metros porque os campeonatos são realizados neste comprimento de piscina.

A comparação não tem fundamento científico, visto que considerar resultados passados é ignorar fatores externos como condição da piscina, local da competição, desistência de participação por motivos de viagem ou até de índice interno do clube, atletas que trocaram de categoria etc.

A comparação ilustra um cenário hipotético, sempre considerando os resultados alcançados em piscina de 50 metros e apenas os das eliminatórias, com exceção das provas que tiveram final direta. O objetivo aqui não é saber se tais índices são justos ou não, mas como isso iria afetar numericamente a quantidade de participantes em campeonatos brasileiros.

O maior impacto seria na categoria infantil, com redução de 52% na participação, enquanto que o menor impacto seria na categoria sênior, com 12%. Na categoria junior 1 notamos a pior taxa de participação de atletas, 361 quedas n’água válidas (atletas que terminaram a prova e não foram desclassificados e/ou atletas convidados) em 26 provas. A categoria sênior vem logo a seguir com 365 quedas em 32 provas.

Em geral, o estilo que foi mais afetado com a redução das marcas de participação foi o livre. Na categoria infantil 1, dos 64 que nadaram as eliminatórias dos 50 livre no Troféu Maurício Bekenn, apenas 13 conseguiriam o índice de participação de 2017, uma redução de 80% na participação na prova.

Confira as tabelas (mais texto a seguir):

INFANTIL 1 INFANTIL 2
PROVA SEM ÍNDICE COM ÍNDICE REDUÇÃO SEM ÍNDICE COM ÍNDICE REDUÇÃO
50LF 51 13 80% 36 14 72%
100LF 53 14 79% 46 13 78%
200LF 37 13 74% 32 12 73%
400LF 12 18 40% 19 14 58%
800LF 9 10 47% 21 7 75%
100CF 20 15 57% 18 10 64%
200CF 21 15 58% 14 11 56%
100PF 16 16 50% 9 15 38%
200PF 14 16 47% 6 14 30%
100BF 11 14 44% 9 11 45%
200BF 2 18 10% 0 17 0%
200MF 20 13 61% 22 12 65%
400MF 3 13 19% 6 16 27%
MÉDIA DE REDUÇÃO FEM 45% 47%
50LM 19 17 53% 35 18 66%
100LM 41 16 72% 58 15 79%
200LM 28 14 67% 33 13 72%
400LM 18 13 58% 39 11 78%
1500LM 10 11 48% 20 10 67%
100CM 8 16 33% 17 15 53%
200CM 9 17 35% 10 20 33%
100PM 4 21 16% 19 16 54%
200PM 6 18 25% 9 17 35%
100BM 18 15 55% 35 13 73%
200BM 1 14 7% 12 20 38%
200MM 31 17 65% 29 17 63%
400MM 1 22 4% 14 18 44%
MÉDIA DE REDUÇÃO MASC 41% 58%
MÉDIA DE REDUÇÃO GERAL 48% 57%
Observações:
1. Números baseados nos resultados de eliminatórias
2. Atletas DQL, OBS e N/C não foram considerados


 

JUVENIL 1 JUVENIL 2
PROVA SEM ÍNDICE COM ÍNDICE REDUÇÃO SEM ÍNDICE COM ÍNDICE REDUÇÃO
50LF 30 7 81% 26 10 72%
100LF 33 10 77% 30 12 71%
200LF 12 15 44% 13 14 48%
400LF 11 12 48% 6 8 43%
800LF 10 11 48% 5 9 36%
100CF 9 9 50% 9 12 43%
200CF 10 12 45% 4 12 25%
100PF 14 7 67% 6 14 30%
200PF 8 10 44% 3 12 20%
100BF 7 12 37% 7 13 35%
200BF 0 10 0% 0 8 0%
200MF 17 12 59% 7 12 37%
400MF 4 13 24% 1 10 9%
MÉDIA DE REDUÇÃO FEM 42% 31%
50LM 24 17 59% 40 12 77%
100LM 51 18 74% 58 18 76%
200LM 27 15 64% 25 17 60%
400LM 23 10 70% 5 11 31%
1500LM 12 12 50% 2 11 15%
100CM 14 17 45% 9 15 38%
200CM 7 21 25% 5 20 20%
100PM 21 18 54% 20 17 54%
200PM 11 18 38% 10 18 36%
100BM 27 17 61% 42 17 71%
200BM 3 16 16% 4 17 19%
200MM 25 12 68% 14 12 54%
400MM 10 17 37% 4 20 17%
MÉDIA DE REDUÇÃO MASC 51% 44%
MÉDIA DE REDUÇÃO GERAL 51% 41%
Observações:
1. Números baseados nos resultados de eliminatórias
2. Atletas DQL, OBS e N/C não foram considerados

 


JUNIOR 1 JUNIOR 2
PROVA SEM ÍNDICE COM ÍNDICE REDUÇÃO SEM ÍNDICE COM ÍNDICE REDUÇÃO
50LF 12 9 57% 3 9 25%
100LF 12 12 50% 3 14 18%
200LF 3 13 19% 2 12 14%
400LF 4 7 36% 5 8 38%
800LF 2 6 25% 1 7 13%
100CF 2 7 22% 2 9 18%
200CF 3 7 30% 0 9 0%
100PF 1 10 9% 0 9 0%
200PF 0 8 0% 0 8 0%
100BF 1 7 13% 1 8 11%
200BF 0 6 0% 0 5 0%
200MF 6 7 46% 2 14 13%
400MF 0 5 0% 0 9 0%
MÉDIA DE REDUÇÃO FEM 19% 10%
50LM 4 14 22% 13 10 57%
100LM 11 15 42% 24 14 63%
200LM 3 14 18% 18 16 53%
400LM 4 12 25% 13 17 43%
1500LM 0 12 0% 7 11 39%
100CM 5 10 33% 0 15 0%
200CM 3 12 20% 1 16 6%
100PM 4 16 20% 4 16 20%
200PM 2 13 13% 0 15 0%
100BM 6 12 33% 12 12 50%
200BM 1 14 7% 1 10 9%
200MM 2 10 17% 1 16 6%
400MM 0 12 0% 0 10 0%
MÉDIA DE REDUÇÃO MASC 19% 27%
MÉDIA DE REDUÇÃO GERAL 22% 19%
Observações:
1. Números baseados nos resultados de eliminatórias
2. Atletas DQL, OBS e N/C não foram considerados

 


SÊNIOR
PROVA SEM ÍNDICE COM ÍNDICE REDUÇÃO
50LF 0 15 0%
100LF 4 15 21%
200LF 1 9 10%
400LF 0 9 0%
800LF 0 5 0%
50CF 0 6 0%
100CF 1 5 17%
200CF 0 9 0%
50PF 0 12 0%
100PF 1 10 9%
200PF 0 7 0%
50BF 0 10 0%
100BF 0 10 0%
200BF 0 4 0%
200MF 0 7 0%
400MF 0 5 0%
MÉDIA DE REDUÇÃO FEM 4%
50LM 15 9 63%
100LM 19 8 70%
200LM 8 11 42%
400LM 4 15 21%
1500LM 2 11 15%
50CM 0 10 0%
100CM 1 10 9%
200CM 0 10 0%
50PM 2 11 15%
100PM 3 10 23%
200PM 0 10 0%
50BM 2 15 12%
100BM 4 6 40%
200BM 0 10 0%
200MM 0 8 0%
400MM 0 8 0%
MÉDIA DE REDUÇÃO MASC 19%
MÉDIA DE REDUÇÃO GERAL 12%
Observações:
1. Números baseados nos resultados
de eliminatórias
2. Atletas DQL, OBS e N/C não
 foram considerados

 


OPEN/FINKEL/MARIA LENK
PROVA SEM ÍNDICE COM ÍNDICE REDUÇÃO
50LF 19 18 51%
100LF 29 20 59%
200LF 16 13 55%
400LF 4 11 27%
800LF 8 6 57%
100CF 10 17 37%
200CF 8 15 35%
100PF 13 14 48%
200PF 7 15 32%
100BF 10 14 42%
200BF 3 9 25%
200MF 13 12 52%
400MF 4 17 19%
MÉDIA DE REDUÇÃO FEM 38%
50LM 13 17 43%
100LM 22 21 51%
200LM 21 19 53%
400LM 23 18 56%
1500LM 14 11 56%
100CM 2 16 11%
200CM 3 16 16%
100PM 9 21 30%
200PM 6 20 23%
100BM 18 18 50%
200BM 4 19 17%
200MM 1 8 11%
400MM 0 13 0%
MÉDIA DE REDUÇÃO MASC 32%
MÉDIA DE REDUÇÃO GERAL 38%
Observações:
1. Números baseados nos resultados de eliminatórias
2. Atletas DQL, OBS e N/C não foram considerados
3. Contagem desconsiderando estrangeiros e atletas CPB
4. Apenas resultados do Troféu Maria Lenk 2016

 

Deixando o lado teórico e científico de lado, o fato é que a CBDA, através de sua diretoria técnica, decidiu elitizar a participação de campeonatos brasileiros. Nota-se que não existe uma lógica coerente por trás da nova tabela de índices se esta tabela foi montada para exercer um melhor nível técnico no campeonato. Para ficar apenas em um exemplo de vários, o índice de participação dos 200 livre infantil 2 (14 anos) é 2:17.32, no juvenil 1 (15 anos) é 2:17.27 e no juvenil 2 (16 anos) é 2:17.22. Em 3 anos, a diferença do 1o. para o 3o. ano é de meros 10 centésimos. Também é de se estranhar o critério para definir o tempo de índice, não divulgado no boletim e também não revelado em discussão com os técnicos participantes do Conselho Técnico Nacional, discussão esta realizada por e-mails já que em 2016 não houve a reunião anual dos técnicos representantes da seleção, CBDA e estados.

Além disso, o sinal de alerta deveria ter sido acionado há muito tempo atrás, pois a partir da categoria juvenil 2 em 2016 notamos provas com 13 participantes ou menos, enquanto as provas de 50 e 100 livre estão entre as mais populares nas categorias infantil e juvenil.

Então, o que quer a CBDA com esta decisão de redução? Reproduzimos a breve justificativa enviada por e-mail aos representantes do Conselho Técnico Nacional por Rômulo Noronha, Coordenador de Esportes da CBDA:

Prezados colegas ,
refletindo sobre as colocações postadas nesta questão,notadamente a visão equivocada dos Profs.Callero e Murilo , percebemos que é trazida para esta discussão a visão muito peculiar de que a massificação da natação brasileira passa pelos Campeonatos Nacionais e não pela verdadeira base : que são os clubes e os programas colocados em  pratica pelas Federações estaduais e ainda pelos Torneios Regionais,onde não existem índices de participação.Alem do mais, cabe lembrar que havia uma defasagem na tabela de índices anterior,que tornava os Campeonatos Nacionais enfadonhos e muito demorados ,trazendo em consequência prejuízo na performance dos nadadores. Fizemos as correções devidas na tabela ,que foi elaborada de acordo com o ranking de cada categoria ,com os ajustes necessários .Acrescento que os economistas costumam dizer  “que não existe almoço grátis”,pois alguém sempre paga a conta .Talvez isto seja uma motivação para que meus caros colegas,que são excelentes Profissionais de Educação Fisica, tambem procurem fazer uma analise da conjuntura econômica de nosso Pais ,para entender melhor o difícil momento que atravessamos.
Abraços a todos,
Rômulo

Sim, você leu certo: a CBDA considera os campeonatos estaduais cheios de participantes “enfadonhos e muito demorados”.

“Enfadonhos”

“Muito demorados”

Esta é a política da Confederação: prezar pela elitização também de categorias de base, evitando ao máximo a participação de  atletas no torneio nacional de cada categoria.

Ah sim, e o velho discurso da crise (“conjuntura econômica”) também serve de justificativa.

A política de tornar os campeonatos menos “enfadonhos” não faz parte dos objetivos da CBDA, de acordo com sua “governança”:

Aliás, vocês viram os regulamentos dos Campeonatos Brasileiros deste ano???

Nem eu.

1 Comment
  1. Fernanda Alvarenga 5 anos ago
    Reply

    Muito bom o estudo realizado, estou fazendo um também e posso enviar para vocês. Entendo a decisão da CBDA em diminuir os índices, porém quando paramos para analisar a realidade de nosso país, ficamos sem entender, como “elitizar” se ainda não temos uma base sólida na nossa natação? Houve realmente uma discussão visando o crescimento de nossa natação? Como pode a categoria que deveria ter mais atletas nadando, sendo a mais prejudicada?

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