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Relembrando: Como é que se derruba uma ditadura?

Reprodução de um artigo do site Epichurus publicado originalmente em 10 de outubro de 2016, para relembrar que muita coisa está em jogo e não uma mera eleição à presidência. Está em jogo o futuro dos filhos de muitos ex-nadadores que agora estão na piscina e precisam de um caminho transparente e bem fundamentado para que suas braçadas não sejam em vão:


Como é que se derruba uma ditadura?

Em um post recente (este aqui) eu lamentei nossa impotência frente a uma gestão longeva e lastimável na CBDA, Confederação do esporte que amamos. Mostrei como era difícil sequer disputar uma eleição naquela entidade, o que torna a gestão vigente praticamente uma ditadura.

Muitas pessoas se manifestaram querendo ajudar, em especial uma das melhores nadadoras com quem eu tive o prazer de conviver, a Ana Catarina Azevedo Scherer (Kate), que escreveu este belo texto nos comentários (íntegra aqui):

Agora, o mais importante das lições que trago para cá, é que ninguém faz nada sozinho/a. É preciso ter um grupo sólido, comprometido com a causa e que divida a visão. Todos precisam sentir-se parte de um processo onde o ganho individual não tem vez e os egos continuam sempre voltados para o ganho coletivo. Aceitar ajudas, dar a palavra ao outro, reconhecer o mérito das idéias e incentivar o grupo a vencer, são algumas das atitudes que precisam ser vivenciadas nesse processo de mudança.

Tendo dito tudo isso, vamos agora ao que podemos fazer de imediato:
1. Iniciar a conversa. E esse passo já foi tomado pelo Cordani aqui e por muitos outros em lugares distintos.
2. Criar um grupo que encabeça a direção da CBDA. Uma chapa nova de pessoas comprometidas e que não tenham seus interesses próprios à frente da causa.
3. Desenvolver uma visão clara a seguir onde todos estejam de acordo e prontos para colocá-la para frente. Ter clareza sobre os valores que regem a CBDA e desenvolver passos estratégicos para implementação das mudanças.
4. Recrutar pessoas que estejam prontas para ajudar a causa. Advogados, estrategistas, empresários, contadores, juízes, atletas, técnicos, jornalistas; todas pessoas que possam contribuir de algum modo para que a mudança aconteça.
5. Organizar as ações de acordo com uma timeline e deadlines. Algum grupo precisa ser responsável pela coordenação.
6. Fazer barulho! Explicar a todos que são envolvidos com os esportes aquáticos; atletas, técnicos, pais, dirigentes de clubes e federações; essa realidade atual e o que o grupo novo pretende fazer. Usar a mídia social, as conversas do dia a dia no clube, artigos, enfim, chamar a atenção de todos para essa situação e para a possível solução proposta pelo grupo.

Com energia,
Ana Catarina (Kate)

Depois dessa aula da Kate, e de outros excelentes comentários no post como o do (pai de nadador olímpico) Willian Duarte, alguns fatos se sucederam.

Logo na semana seguinte ao post houve uma série de denúncias que pipocaram por todos os veículos da mídia, chegando até ao Jornal Nacional. Assista no vídeo abaixo (2:49) aquilo que foi visto por boa parcela da população (inclusive pelos possíveis patrocinadores)…

(OBS: é preciso deixar claro que por enquanto são apenas acusações, que não significam condenação. De qualquer forma, a resposta do Coaracy é constrangedora, chega a dar vergonha)

Posteriormente, no dia 28/09 tivemos a assembleia extraordinária da CBDA que, dentre outras deliberações, votou incrível e majoritariamente A FAVOR das seguintes resoluções:

  • LEI DA MORDAÇA: a partir desta assembleia, os atuais ditadores diretores passam a ter o poder de calar seus adversários políticos, “o presidente de federação que denegrir a imagem da CBDA poderá ser afastado do cargo ou ter a sua entidade desfiliada.”. É Claro como a água da piscina do Maria Lenk que a direção tentará usar esse artigo para calar e desclassificar seus oponentes, tentando manter o poder a qualquer custo. Imagem? Democracia? Que se lixem, aqui é 28 anos de poder! (detalhes aqui)
  • MENOR PESO AOS ATLETAS: o voto dos atletas é uma exigência da lei Pelé, e pela resolução da assembleia o voto dos atletas passaria a valer 1/6 do voto de uma Federação, ou seja, peso dos atletas em uma eleição será de 0,61% apenas. Isso é uma Confederação que apoia atletas?
  • Comissão de atletas será INDICADA pela CBDA. Ou seja, convocarão cordeirinhos para abaixar a cabeça e votar no Coaracy e cia. Quem se dignará?

Os absurdos itens acima (e apresentei apenas os principais) foram votados pela maioria das Federações Estaduais, que operam sob o medo do Coaracy, conforme explicamos em outro post: votou contra, ele retalia. Apenas seis Federações (até o momento) se levantaram corajosamente contra esses absurdos: PE, RO, MT, SP, RJ e ES. E se você não leu o nome do seu estado aí, querido leitor, é porque o presidente da sua Federação está a favor do status quo e dá apoio explícito ao Coaracy. Eu sei, é difícil confrontar uma ditadura, mas o fato é que a maioria das Federações é no mínimo conivente com a turma que lá está há vinte e oito anos!

E como se não bastasse, ainda veio a bomba final: os Correios (infelizmente o único patrocinador da entidade) ameaça cancelar o patrocínio em função das denúncias (aqui). Só o fato do patrocinador ser único já é um absurdo, perdê-lo por falta de transparência é outro ainda maior!

correios

28 anos de gestão e o legado é a galera? Não, o legado é a terra arrasada…

Vinte e oito anos de gestão, e o que temos ao fim do ciclo olímpico é nada menos do que TERRA ARRASADA. O que será do próximo ciclo? E do seguinte? Algum patrocinador teria coragem de se associar com uma diretoria que conta com tantas denúncias e autoritarismo? É claro que não! Você, atleta jovem, acha que a natação terá dinheiro para te ajudar quando chegar a sua hora? Pois sob uma possível gestão do candidato do Coaracy, Ricardo de Moura, não terá um centavo. É preciso mudança.

Considerando todos os fatos acima, fica muito claro que o jogo é pesado, e a barreira para participação na eleição é hoje em dia intransponível. Simplesmente não dá para montar uma chapa do nada e tentar ganhar no voto como bem havia sugerido a Kate. Não passaria nem da porta da rua!

Aí fui me inteirar sobre as possibilidades de chapa de oposição, e fui informado de que os estados corajosos mencionados acima estão aglutinando em torno do atual presidente da Federação Aquatica Paulista, o Miguel Carlos Cagnoni, uma candidatura de oposição. Cagnoni já tentou ser candidato outras vezes, mas o Coaracy fortalecido com a perspectiva de olimpíadas em casa, com a caneta na mão, força bruta e filigranas jurídicas sempre conseguiu bloquear essa possibilidade. Com o enfraquecimento (doença) do Coaracy, série de denúncias, perda do único patrocínio e um candidato muito menos emblemático do que o Coaracy, desta vez me disseram que pode ser que haja chances de mudança.

miguel_lance_blur

Eu já conhecia o Miguel de outros carnavais, sempre com ótima impressão, e tive a oportunidade de ser recebido para uma conversa. A PRIMEIRA coisa que ele me disse já me agradou: “Cordani, li seu post sobre criança na água e peço licença para usar esse mote na minha campanha”, eu evidentemente lhe dei autorização e começamos uma conversa muito boa, que (prometo) relatarei em breve.

Legitimidade

Mas a questão é que dei o aval para ele usar o mote “Criança na água” justamente porque Cagnoni realmente tem autoridade para falar de criança na água. Como presidente da FAP é o responsável por colocar duas mil crianças nadando em um fim de semana , fato que eu tenho testemunhado de perto (pois tenho filho petiz). E como pai posso atestar que a organização da FAP é exemplar, as competições são numerosas e muito bem organizadas, transmitidas online e com resultados prontamente na internet. Sede própria paga, equipe de arbitragem competente (faz inclusive competições para a CBDA), enfim, na FAP Miguel provou ser um craque de gestão. Fui me informar um pouco mais e peguei números sobre atletas confederados ativos, relacionados no gráfico abaixo:

atletas_confederados_ativos

Fonte: http://www.cbdaweb.org.br 24/09/2016

Trocando em miúdos: ninguém mais discorda que a CBDA (assim como diversas outras Confederações) é uma ditadura. Para derrubar uma ditadura, são necessários coragem, profissionalismo, trabalho, vontade, ter o que mostrar, e, fundamentalmente, força e viabilidade política. Como disse a Kate, ninguém faz nada sozinho. Precisamos de você, leitor, precisamos da pressão sua e do seu clube sobre o presidente(a) da Federação do seu estado. É ele(a) que vota, apenas. Ficará ele(a) conivente com a derrocada do nosso esporte? E você, caro leitor, será conivente?

Cagnoni, Borges e Pelé. A lei que leva o nome deste último quer atletas participando, mas o Coaracy não quer...

Cagnoni, Borges e Pelé. A lei que leva o nome deste último quer atletas participando, mas o Coaracy não quer…

Mas sabemos que mesmo assim é difícil. Miguel Carlos Cagnoni é o único a reunir hoje condições de lutar. Miguel, a luta é difícil, derrubar uma ditadura é muito complicado, mas você pode contar comigo. Acredito em você, e oxalá você consiga fazer na CBDA o que já conseguiu fazer na FAP. Quem tem a coragem de vir junto conosco? (*)

Renato Cordani

(*) gostaria de esclarecer que a meu trabalho é outro (sou geofísico) e não tenho nenhuma pretensão de cargos futuros, meu apoio é totalmente desinteressado. E uso o fato de que como não trabalho com natação, não posso ser retaliado pela Confederação por apoiar a oposição…

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