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E nós, o que podemos fazer?

Reprodução do post original publicado no Epichurus em 12/set/2016:


Milhões desperdiçados, gestão pífia, declarações infelizes, poucas crianças na água, acusações de desvios: e nós, o que podemos fazer?

Por Renato Cordani

No início de 2013 escrevi aqui mesmo no Epichurus um texto (este) que teve bastante repercussão. Foi muito bom perceber o apoio de muita gente para a tese que eu estava defendendo, foi legal e tals, mas não adiantou nada, e sabem por quê? PORQUE A ELEIÇÃO JÁ TINHA PASSADO, não houve oposição e (mais uma vez) o sr. Coaracy Nunes foi eleito.

Belas palavras do nobre candidato em 1984.

Aí o cidadão incauto vai dizer: “ah, mas se não teve oposição é porque está todo mundo satisfeito com a gestão, né?”. Errado, vamos por partes.

Satisfação com a gestão? A gente vê por aqui:

“Decepção. Essa é o sentimento da natação brasileira ao final das competições no Jogos do Rio de Janeiro. O Brasil deixa a competição sem nenhuma medalha conquistada, algo que não acontecia desde Sydney, em 2004. E, pior, isso acontece depois de um investimento histórico no esporte. Um investimento de mais de R$ 122 milhões, para ser mais preciso.”

Antonio Strini, da ESPN não está satisfeito (link):

“Temos que ser humildes em admitir que o investimento não está sendo bem feito. O benefício do Bolsa Atleta, o contrato dos Correios, os treinamentos na altitude no Arizona (EUA) e México, as competições no exterior parecem não servir mais. Essa fórmula visivelmente está ultrapassada e temos que ir além. Temos que reorganizar, reinventar, só assim ficaremos livre da “sorte” de aparecer um talento para nos iluminar com uma medalha. Nós ainda falamos de Ricardo Prado, Gustavo Borges, Fernando Scherer, Cesar Cielo e Thiago Pereira. Vivemos de um passado esperando que a sorte apareça em um futuro breve.”

Henrique Barbosa, nadador olímpico e atual recordista sulamericano dos 200 peito e 4×100 4 estilos, também não está satisfeito (link):

“Não estou aqui exigindo medalhas. Estou, sim, pedindo que Ricardo de Moura preste contas de sua gestão, recheada de muito dinheiro público, que promova amplo debate para saber o que foi feito certo e o que não foi. Torcida e calor humano não sugam Milhões de dinheiro público.”

Alberto Murray, ex membro do COB e da Corte arbitral do COI, tampouco está satisfeito (link).

Voltei

Opa, alguém falou em Ricardo de Moura? Vamos ver a prestação de contas que ele nos concedeu um dia antes do final das provas olímpicas da natação.

Então é isso. Ricardo de Moura, o atual candidato da situação, aquele que comandou o orçamento milionário e apresentou resultados pífios disse que tudo bem, o importante é a galera! Foram cento e vinte e dois milhões (sem contar 2016) e o legado é o calor humano do público, o qual forjado em cima de ídolos estrangeiros, como Phelps, Ledecky, Peaty e Katinka. Oi?

E sobre as competições da CBDA? Nesse ano (que não houve brasileiro de categoria) foram gastos – atenção – 739 mil reais para executar apenas uma competição, o Maria Lenk, sendo que desse gasto apenas os itens “Serviços de Terceiros” somados a “Outras Despesas” totalizam R$ 350 MIL REAIS. (aqui) Entidade nenhuma do mundo poderia apresentar um gasto de 350 mil reais sem discriminação. A CBDA, que usa maioritariamente dinheiro estatal, pode?

Vamos falar das outras modalidades, afinal a CBDA abarca cinco delas: as águas Abertas tiveram o alento do sensacional bronze olímpico obtido pela Poliana Okimoto, mas nem o mais ferrenho apoiador da atual gestão (os há?) diria que é mérito da CBDA. Além disso, tenho participado de travessias em nível nacional e vi de perto o DESERTO de participantes em geral e particularmente a ausência de novos talentos na categoria principal. No Pólo Aquático a coisa desandou: não vou entrar em detalhes, mas você pode ler mais sobre o imbróglio aqui, isso sem contar o absurdo de gastar milhões com atletas estrangeiros e velhos para compor a seleção olímpica, para fazer papel mediano em uma modalidade que não participávamos das olimpíadas desde 1984 (e pelo jeito vamos ficar mais 32 anos sem participar!). Nado Sincronizado e Saltos Ornamentais? Ambos à míngua em dinheiro, em participantes, em visibilidade.

E tem mais? Infelizmente tem. Some-se a tudo isso tudo o fato lamentável da investigação pelo Ministério Público Federal (aqui).

Enfim, é praticamente consensual: NINGUÉM AGUENTA MAIS ESSA GESTÃO DA CBDA.

matheus_santana_oculos

Esses óculos (U$300 cada) acabaram sendo mais uma papagaiada, e nossos atletas pioraram consistentemente à noite, ao invés de melhorar. Não era o caso de terem se preparado no horário para o qual as provas já estavam marcadas há mais de um ano, ao invés de usar esses óculos por apenas duas semanas?

Pois bem, voltando à pergunta inicial daquele cidadão incauto: então, se ninguém está satisfeito, como é que essa turma continua se reelegendo? Muito simples: os eleitores do presidente da Confederação são apenas os 27 presidentes das Federações Estaduais. Com mais de 30 anos de gestão de forma ininterrupta, e de posse da chave do cofre dos milhões (a maioria de dinheiro estatal), a Confederação conseguiu incutir MEDO nos estados, de tal forma que a situação foi se perpetuando. Eu não tenho provas, apenas relatos, mas digamos que, hipoteticamente, o presidente da Confederação ligue para o presidente de uma Federação falida de um pequeno estado (estão quase todas falidas, sem receitas e com pouca atividade), e diga “ou o sr vota na situação ou eu ferro com a sua Federação, e aliás, se você votar em nós eu te mando um computador novinho! Ah, e claro, sua credencial olímpica já está quase pronta!”. Multiplique esse esquema por quase trinta anos: o continuísmo prospera e os resultados… são os que vimos.

Mas não é só isso, ainda há as inacreditáveis manobras jurídicas. Para vocês terem uma ideia, nas últimas eleições a oposição SEQUER CONSEGUIU PARTICIPAR, pois a CBDA incluiu inadvertidamente e de última hora, sem avisar, uma cláusula nova em um alegado “Regimento Interno” e inexistente no estatuto segundo o qual a chapa de oposição teria que apresentar carta de intenção de cinco federações. Ocorre que o Estatuto está disponível no site (por lei), mas o tal Regimento Interno, ou seja, essa cláusula, não! (detalhes aqui). Essas manobras são infinitas, e por essas e outras que o Sr. Coaracy Nunes foi se reelegendo pelos últimos 28 anos!

Por fim, chegamos à atual situação desoladora em que nos encontramos, para usar palavras do então candidato de 1984. E só como um exemplo final, é estarrecedor acompanhar (leiam nesse post do Coach) a relação de Estados x Número  de atletas no Troféu José Finkel 2016, campeonato brasileiro absoluto, eliminatória para o mundial, competição que começa hoje:

São Paulo – 217 atletas – 61%
Minas Gerais – 44 atletas – 13%
Rio de Janeiro – 30 atletas – 8%
Rio Grande do Sul – 29 atletas – 8%
Paraná – 17 atletas – 4,7%
Santa Catarina – 12 atletas – 3,5%
Distrito Federal – 2 atletas – 0,05%
Espírito Santo – 2 atletas – 0,05%

Vejam os números acima: só OITO ESTADOS? Onde estão os outros DEZENOVE? Onde está o Nordeste, que já revelou Kaio Marcio, Ana Marcela, Joanna Maranhão e Edvaldo Valério, entre muitos outros? Onde está o Norte de Monica Rezende e Eduardo Picinini? E o Centro-Oeste, que já revelou Carlos Jayme? Será que só se pratica natação no Sul e Sudeste deste país? E olhem de novo a desproporção: 61% dos atletas estão em UM estado apenas, São Paulo, e vocês ainda acham “coincidência” que Gustavo Borges, Cesar Cielo e Poliana Okimoto sejam atletas da FAP? Bom, e se a natação está assim, imaginem os outros esportes…

Não quero cometer o mesmo erro de 3 anos atrás e tentar fazer algo apenas quando Inês já estiver morta. A eleição será nos próximos meses (não está claro como e quando pois a transparência não é o forte da atual gestão da CBDA), vai ter assembléia de mudança de regras eleitorais agora dia 28 de setembro e É HORA DE NOS MEXERMOS. O BONDE DA MUDANÇA VAI PASSAR, NÓS VAMOS PERDER MAIS ESSA OPORTUNIDADE?

Este espaço está aberto para discussão. Tenho algumas ideias, já expus algumas (É criança na água, estúpido!), e quero continuar na luta até a eleição. Tenho poucas armas, sou apenas um ex-nadador, não voto, não trabalho na área, não conheço nenhum presidente de Federação (fora São Paulo, claro), quer dizer, sou apenas um entusiasta dos esportes aquáticos que não aguenta mais ver essa situação sem poder fazer nada. Mas o que podemos fazer?

1 Comment
  1. Flávio Barbosa 5 anos ago
    Reply

    Concordo com tudo o que foi escrito. A CBDA está afogada, sem prestígio, e eles tudo fazem pra continuar lá, só porque não querem perder a boquinha. Essa corrupção pode acabar com a natação brasileira e temos que impedir isso.

    PS: a Olimpíada de 2004 foi em Atenas. Sydney sediou em 2000 e tivemos aquele bronze do 4 x 100 deles.

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